segunda-feira, 28 de março de 2016

PONTO ZERO - #21 - SOZINHO EM BOA COMPANHIA

Sair à noite, ir a um bar, beber um copo, conversar com os amigos e amigas, foi algo que sempre fez parte da minha vida. Digo “foi” porque cada vez é menos. É verdade que uma boa parte desses companheiros e companheiras de boémia cavaram para onde se ganha a vida. É verdade que os quarenta e dez anos de idade já não estão tanto para noitadas, mas não é por isso que fico em casa de volta dos meus vícios. O problema é que hoje juntamos meia dúzia de amigos num bar à volta de uma mesa e não está lá ninguém. Cada um puxa pelo seu ecrã, mais ou menos sofisticado e desaparece. Eu, como tenho um ecrã de trinta paus e procuro convívio, fico sozinho. Para estar sozinho entre amigos, então fico em casa e falo com eles no Facebook. Falo apenas, não converso. Uma boa conversa não é só palavras. É o tom com que se fala, é a expressão do rosto, é o olhar, é o gesto é, até, o carinho que acompanha cada palavra. Posso estar em casa a falar com vinte pessoas, mas contínuo sozinho. 


Isto não é dizer mal das novas tecnologias, até porque as uso com muito prazer e proveito. Sem elas talvez ninguém lesse este texto. É constatar que a mesma internet que transformou o mundo numa aldeia, consegue anular o relacionamento humano de proximidade. Hoje estou mais próximo da família que tenho na América do que das pessoas com quem lido diariamente. Lidar não é conviver. É dizer: Olá, tudo bem a alguém que levantou os olhos por um instante do ecrã. Vai sendo tempo de inventarem óculos com ecrã nas lentes. Uma lente para o Facebook e outra para ir navegando com uma simples piscadela de olho. Há a vantagem de não estar inclinado para a frente e ficar com as mãos livres. Pode ser que as mãos livres façam algo de agradável e produtivo. Note-se que foi a mão livre que levou um antigo primata a dar um grande salto na evolução tendo como resultado final a nossa espécie. 

Ter medo das mudanças é muito humano, principalmente quando já se viveu meio século. Não tenho medo, até porque nasci noutro planeta onde não havia internet nem computadores nem telemóveis e quase nem televisão. Se vi o mundo mudar abruptamente nos últimos trinta anos sem receios, também não temo o que há-de vir. Questiono apenas como será um mundo governado por pessoas que não brincaram às escondidas, não jogaram à bola na estrada, não fizeram cabanas no mato, não fizeram bolos de lama, não roubaram fruta das árvores, não foram aos ninhos, não jogaram à cabra-cega, nem ao anel-anel, não leram banda desenhada, nem a “Anita” nem nada, não esfolaram os joelhos nem racharam a cabeça à pedrada? Se calhar até será um mundo melhor, mas totalmente diferente. A minha carreira, ainda curta, de escritor tem os dias contados ou então edito um livro com uma tiragem de dez exemplares e será um best-seller se vender oito. O velho sonho de publicar um livro de banda desenhada também pode ficar pelo sonho. Claro que posso sempre emigrar para a Bélgica, ultimo reduto da 9.ª arte. Certo é que vou continuar a escrever e a desenhar, nem que seja só para mim. 

Não tenho medo do novo mundo, mas tenho saudades do tempo em que se estava num bar a falar de coisas sérias, a contar anedotas, a fazer jogos de cartas ou outros jogos que podiam terminar a esforçar os amortecedores de um automóvel. Até isso está cada vez mais virtual, apesar das bem-abençoadas liberdades conquistadas.

Sem comentários:

Enviar um comentário