terça-feira, 15 de setembro de 2015

PONTO ZERO - #19 - HÁ SACANAS À SOMBRA

Sento-me na minha varanda. Como uma sandes de fiambre e abri uma cerveja geladinha. Agosto ainda vai quente. Do fundo do corredor da minha memória vem a voz do meu avô:
                - Até caiem rolas assadas!
Viajo até essa sala a memória onde guardo tanta coisa boa de uma infância feliz. Lá estão os meus avós, grandes responsáveis por tal felicidade.
                - Até caiem rolas assadas!
Olhava para o céu, não na esperança de ver cair nada, mas imaginando uma chuva de pequenos churrascos. Ria-me. Ria-me com os meus pensamentos. Se é isso que fazem os loucos, então é isso que eu sou. Não perdi a vontade de rir com as bizarrias da minha imaginação desenfreada. Rio porque não sou muito para chorar. Ao contrário do que se diz, nós homens também choramos, mas prefiro abstrair-me ou encarar qualquer causa de lágrimas com racionalidade.
A minha avó tinha outra frase para o calor do verão:
                - Está um calor que até assa canas à sombra.
Frase matreira para chamar sacanas ao meu avô e ao neto preferido, ambos sentados à sombra do castanheiro. “Assa canas à sombra” e “Há sacanas à sombra” soa da mesma maneira. Eu fingia que não percebia. O meu avô, apesar de ser bem desempenado no falar, respondia algo imperceptível por entre os poucos dentes. Seria algo pouco educativo para o ouvido de uma criança, enfim… sacanices.
O apito da carrinha do padeiro fez-me voltar à realidade e cortou-me o pensamento da mesma forma que cortou a silenciosa calma da minha aldeia. Terra simpática que me viu crescer e que tem envelhecido comigo. Os velhos vão morrendo e os jovens batem asas daqui para fora atrás da vida que aqui não vive. Cada vez são menos os clientes do padeiro. Regresso às galerias da memória. Sou outra vez criança e percorro as ruas da aldeia. Há gente em todo o lado. Mercearias são quatro. Há cafés e uma taberna. Há sapateiros, um relojoeiro e um funileiro. Há quem venda sardinha de canastra à cabeça. Há quem ande de canastra à cabeça a comprar ovos. Há ovelhas, juntas de bois, burros e galinhas à solta para infelicidade das minhocas. À hora da saída da escola há uma rua cheia de crianças. Há vida. Havia vida. Agora atravesso a aldeia e talvez tenha a sorte em ver um gato.

Termino o meu lanche, mas fico por aqui na melancolia. Está um calor que até há sacanas à sombra. 

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