quinta-feira, 16 de outubro de 2014

PONTO ZERO - 018 - O TEMPO DO CHICHARRO

Ouve-se uma buzina. Vou à janela. É o peixeiro. Curioso acontecimento das nossas aldeias. Recordo outros tempos. O tempo em que era a minha tia Maria Chouriça que andava de rua em rua de canastra à cabeça a apregoar a sardinha fresquinha e outros peixes vindos do distante mar. Sim, o mar era muito mais longe do que hoje. Nesse tempo era tudo mais longe, mas o próprio tempo passava mais devagar. “Não tenho tempo” é das expressões mais usadas nos dias de hoje. O que é que fizemos ao tempo!? Einstein descobriu que o tempo é relativo e que passa mais devagar para quem viaje a alta velocidade, mas isso não se aplica ao nosso quotidiano.
O peixeiro abriu uma porta lateral da carrinha e algumas mulheres aproximam-se com pratos na mão.
Devíamos tratar o tempo como se fosse dinheiro. Se temos cem euros não podemos gastar cento e vinte. Se temos vinte e quatro horas por dia não nos podemos meter em trabalhos que ocupam trinta horas. Precisamos de tempo para dormir, para comer, para brincar, para conviver, para aprender, para criar, para amar e até para nos estendermos ao comprido sem fazer rigorosamente nada. Tenho desses dias. Um milhão de coisas para fazer, mas não dá. Amarro o burro e deito-me ao comprido no meu sofá a olhar para o teto com o miolo cinza desligado. Qualquer interrupção a este processo tem a típica resposta: Não me chateiem.
As mulheres regateiam o preço do peixe. O peixeiro de corpo roliço quase esférico, sinal de que é mais virado para as torresmadas do que para o salmão grelhado, abre os braços barafustando: O que é que querem!? Eu já compro caro… isto mal me dá para o “gasóil”…
Na infância, o tempo, passa mais devagar. Pelo menos era assim na minha já longínqua verde idade. Tinha-mos quatro meses de férias. Quatro meses sem ver os colegas, amigos e paixonetas que se derretiam no calor do verão. O primeiro dia de aulas era todo abraços e beijinhos. A Paixoneta do ano passado tinha agora um cabelo horrível e borbulhas onde antes via pintinhas. Era tempo de virar atenções para a desprezada prima agora mais crescida em todas as medidas. Agora já não há tempo para saudades. O telemóvel e o Facebook mantêm a juventude em contacto. Isso não é mau, mas a saudade faz bem. Faz dar valor àquilo que nos falta. Hoje já nem as crianças têm tempo. Primeiro há a escola. Depois vem a aula de música, de dança, de ballet, de judo, de karaté e de todas as outras artes e desportos possíveis e imaginárias. Se sobrar tempo é para ficar de olhos postos num ecrã. Acho fantástico que as crianças de agora tenham jeito para tudo. A minha mãe bem me punha o acordéon ao colo, mas dali só saiam coisas roufenhas do tipo dinossauro engasgado. Também sou daltónico dos pés. Nem futebol, nem dança. Sei andar, mas devagar para não cair.
- Pegue lá o chicharro. Não estou para dar um dinheirão por espinhas. O peixeiro encolheu os ombros resignado.  
Não percebo nada de novas pedagogias, mas acredito que faz falta a uma criança brincar na terra, sujar-se, apanhar fruta e comer sem lavar, andar à pancada, esfolar os joelhos e partir a cabeça. Talvez não seja tanto assim, mas ver jovens que chegam aos vinte anos sem se conseguirem desenrascar sozinhos em coisas tão simples como apanhar um comboio é estranho e triste. Tanta informação e tão pouca formação.

O peixeiro fechou o carro e arrancou a apitar pela rua Dom Manuel I fora. O tal rei que deu Carta de Foral à minha aldeia no tempo que era vila. Que faça bom negócio. 

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