quarta-feira, 31 de maio de 2017

PONTO ZERO - #23 - A MENINA E O LIVRO

A menina destacou-se do grupo de colegas que, ordeiramente, entrou na feira do livro. Saiu das duas filas paralelas que a professora e a auxiliar já não conseguiam manter. Eu sei que é por questões de segurança, mas faz-me sempre pena ver as crianças enfileiradas debaixo de uma chuva de “nãos”. Não saiam da fila, não corram, não larguem a mão do colega, não façam barulho… Não fui criado assim e cresci feliz. A menina furou as regras e foi direita à banca dos livros mais próxima. Teve que se pôr nos bicos dos pés, porque os seus seis ou sete anitos, ainda não chegavam aos livros. Pegou num livro bem colorido. Abriu. A felicidade instalou-se no seu rosto. A auxiliar chamou.

- Ana. Ó Anita. (Nome fictício) 

Ela não ouviu. Ela não estava ali. Ela viajava por um mundo mágico criado por quem escreveu e ilustrou aquelas páginas. Que grande prazer seria para o autor se ali estivesse no meu lugar a observar a cena. Divina felicidade é criar mundos onde as crianças possam entrar, viajar, sonhar e crescer.

- Ana. Ó Anita.

O chamamento foi mais ríspido, mas ela não ouviu. A sua boca sorria, os seus olhos sorriam e todo o seu corpo franzino sorria. Por momentos tive a ilusão de que a banca dos livros, a enorme tenda da feira, a cidade e todo o universo sorriam também. A auxiliar, impaciente, veio e tirou-lhe o livro da mão. Levou-a pela mão, mas ela foi sempre a olhar para trás. Nessa altura, os seus olhos cruzaram-se com os meus. Vi naquele olhar, inocente e belo, o desejo de um dia construir mundos onde as crianças possam entrar, viajar, sonhar e crescer.

Vítor Fernandes

quinta-feira, 6 de abril de 2017

CRÓNICAS DO ZODÍACO – CARNEIRO

Os nativos de Carneiro são, pelo lado positivo, aventureiros, enérgicos, pioneiros e valentes. São rápidos, dinâmicos, seguros de si e costumam demonstrar entusiasmo para as coisas. Pelo lado negativo, eles podem ser egoístas e ter mal gênio. São impulsivos e às vezes têm pouca paciência. Tendem a se arriscar muito. 

Basicamente, o carneiro é o macho da ovelha e serve para as emprenhar. Também se pode aproveitar a lã e as marradas. Por fim vai parar ao prato de quem não é vegetariano. Se calhar há plantas com sabor a carneiro, mas se não houver, também não fazem falta porque não é das coisas mais apreciadas. Também não creio que os vegetarianos procurem equivalentes vegetais aos produtos animais. Talvez procurem em valor nutricional, mas não em sabor. Não tenho nada contra eles, assim como não tenho nada contra ninguém. Cada um é livre de fazer as suas escolhas, desde que não prejudiquem ninguém. Os vegetarianos não me prejudicam, nem mesmo quando olham para mim horrorizados enquanto saboreio um bife suculento. Sim, como primata, sou omnívoro. Estou perfeitamente adaptado ao consumo de produtos de origem animal e vegetal. O Homo Sapiens, tal como todos os mamíferos omnívoros, tem os dentes caninos menos desenvolvidos que os carnívoros e os incisivos e molares mais simples que os herbívoros. Esta característica deu-nos grandes vantagens em termos evolutivos, graças à grande diversidade de alimento que podemos consumir. O que mais há na natureza é animais que matam e comem animais. A isso dá-se o nome de cadeias alimentares e são indispensáveis ao equilíbrio da natureza. Nós, mais evoluídos, começamos a considerar um crime hediondo matar um frango e fazer um churrasco. Já sentar o traseiro ao redor de uma arena onde se tortura um animal, é divertido e fino. Por mim, vou continuar a ser primitivo à mesa e estou-me bem nas tintas para os herbívoros. Quanto a torturar animais nas arenas já adquiri outra consciência. Considero ridículo, absurdo e cruel, mas ainda vai demorar tempo para que toda a gente mude esse ponto, até porque há muito dinheiro em jogo. Quando o dinheiro manda, já não há sentimentos de nenhuma ordem. Já se pode torturar, matar e comer. Temos pena, mas são males necessários que dão lucro. O importante é o lucro e nada mais que o lucro. Não estou a protestar contra nada nem quero mudar o mundo. Continuo a respeitar as características humanas, tanto no tipo de alimentação, como na ambição desmedida. De certa forma, até me dá algum prazer por pertencer às últimas gerações humanas. Sempre posso observar algo muito singular na História da vida na Terra. Só tenho pena não estar cá para ver o grande suspiro de alívio da natureza quando se livrar de nós. 



segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

PONTO ZERO - #22 - 2017

E começa 2017 com vento e ameaça de chuva. O inverno está para vir. A chuva costuma demorar entre 48 e 72 horas após se instalar a dor no meu joelho direito. O meu joelho tem uma artrose meteorológica. Não sei como funciona, mas sei que não falha. 2016 já foi e até costumo fazer um juízo do ano imitando o mítico Borda D’água. Não estou com grande pachorra para isso, mas ainda posso dizer que a geringonça vai funcionando, para desespero de muita gente e o Benfica vai à frente, para desespero de outros tantos. A mim, nada me desespera. Politicamente, sou neutro, não porque não tenha ideais, mas porque já vejo há muito tempo os nossos políticos a abalroar ideais como quem anda em carrinhos de choque. O futebol é para mim aquilo que o futebol deve ser: mero entretinimento. Já alguém disse que temos futebol a mais e escola a menos. Palavras certeiras para um povo que vê uma catástrofe na derrota do seu clube ou a salvação do mundo numa vitória. Já nem falo na Casa do Segredos e outros atentados televisivos que enfileiram o povo em rebanhos de palermas. Que se pode esperar de 2017? Mais do mesmo. Haverá guerras, haverá actos terroristas, haverá fome ao lado da obesidade infantil, haverá humanidade como sempre houve, cruel e tacanha. Até à extinção nada mudará. Quem me chama pessimista, que me dê um sinal de optimismo e talvez eu mude de discurso. Por agora vou comer uma magnífica fatia de tarte de requeijão com que a minha prima Catarina me presenteou na hora do lanche. Quem tem uma prima amiga tem tudo, quem não tem, que arranje. Eu tenho várias primas amigas e amigas sem serem primas. A amizade vale muito mais que a geringonça e o Benfica. Se 2017 trouxer muitos problemas, animem-se. O que está em Portugal é dos portugueses e dos outros todos, mas em 2018 há campeonato do mundo e se ganharmos a taça, ficamos com tudo





segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

HÁ UMA ESTRELA AO LADO DA LUA

HÁ UMA ESTRELA AO LADO DA LUA

- Para quem estás a ligar? Para aquele pícaro?

- Já acabei. Era uma amiga.

- Malditos telemóveis.

A porta do quarto fechou-se com estrondo.

Andreia estava estendida na cama procurando outro número na extensa lista do seu telemóvel. Encontrou, marcou, esperou uns poucos segundos.

- Está? Ricardo? Sabes que nome a minha mãe te deu ainda agora?

- Qual?

- Pícaro! 

- O que é um pícaro?

- Espera... estou a ver no dicionário... cá está. Pícaro: ardiloso, astuto, burlesco, esperto.

- Os teus pais nunca me vão aceitar.

- É só a minha mãe, mas tem paciência. Com o tempo tudo vai correr bem. 

- O meu pai também me anda a chatear, mas acabo por o convencer. 

- Francamente não entendo. A minha mãe só te viu uma vez, o teu pai nem me conhece. Que raio vêm eles de errado? Será por sermos novos?

- Pelo menos temos uma aliada. A minha mãe diz que tu és muito linda. E tem razão.

- Bigado pelo elogio. O meu pai também nos defende, mas sabes que a opinião dele aqui não conta. Está um desgraçado feito. Se algum dia fores como ele, ponho-te as malas à porta.

Ricardo apenas respondeu com um profundo suspiro.

- Não dizes nada!?

- Estava a pensar se algum dia teremos porta para tu lá pores as malas ou para que delas para dentro seja o nosso ninho.

A conversa continuou embebida na juventude de ambos até que a porta se voltou a abrir e Alice entrou com modos coléricos 

- Tu para-me já com a porcaria da conversa com esse bandido.

- Não me diga que estava à escuta atras da porta!? Será que não tenho direito a privacidade?

Alice estava visivelmente irritada. Mais ficou com as palavras da sua única filha.

- Tens direito a tudo quando pagares as tuas contas, incluindo o telemóvel. Por isso estuda em vez de dares trela a esse cão de água. Uma pirralha de quinze anos já quer namorar? 

- Você nem o conhece.

- Conheço muito bem, tanto ele como a tralha da família que tem. 

- Ah. Então é isso. O problema é ele ser pobre.

- Não é a pobreza que me incomoda. Tu também não és rica. É ele ser filho de... de um canalha. 

- Olhe, não conheço o pai, mas também não pretendo namorar com ele. O que está em causa é que o filho é uma jóia de rapaz.

- Filho de burro não pode sair cavalo. Se o pai é uma besta o filho não vai ser melhor. Por isso é melhor acabares com esse conto de fadas.

- Só gostava de saber o que é que ele ou o pai dele fizeram para você os odiar dessa maneira.

- Tenho muitas e boas razões, mas não são coisas que se contem a uma fedelha. Eu da tua idade ainda brincava com bonecas.

- Isso diz você e dizem todas. No seu tempo havia muito mais coisas que agora só que era tudo feito com hipocrisia.

Andreia estava sentada na cama de testa franzida. Alice nunca tinha visto a filha assim tão furiosa. Por isso resolveu apaziguar os ânimos e sentou-se junto a ela falando com brandura. 

- Filha. És muito jovem e fácil de iludir. Há tantos rapazes a suspirar por ti que não devias envolver-te tanto com o primeiro que te aparece. 

- E se andasse com outro, a mãe já aceitava? Mesmo sendo nova?

- Talvez. O Eduardinho, por exemplo é uma estampa de rapaz, educado, respeitador...

- E rico. Não é mãe? Você quer é um genro rico. Os meus sentimentos que se lixem. 

Alice levantou-se de rompante voltando ao tom severo.

- Acabou-se. Não se pode falar contigo. Tu ainda não tens querer e por isso trata de despedir o teu príncipe pé descalço, herdeiro de má catadura, antes que seja eu a reduzi-lo à sua insignificância. 

Retirou-se batendo com a porta. Andreia ainda teve tempo de ver uma lagrima fortuita no rosto da mãe.

Andreia estendeu-se na cama. Tica, a gata, veio aninhar-se junto dela ronronando baixinho.

- Pois é Tica. És a única que me compreende. Que raio de implicância com o Ricardo. Qualquer dia desapareço daqui para fora.

Tica respondeu com um miado fininho. 

Andreia estava prestes a fazer desaseis anos. Tinha a frescura natural da adolescência. O cabelo negro e liso caia-lhe sobre olhos dando uma graça peculiar à testa alta reveladora de inteligência. O nariz empinado aliado aquele sorriso safado dava-lhe um ar atrevido e encantador. O corpo, apesar da tenra idade, revelava já as formas de uma bela mulher a desabrochar. Vestia, quase sempre, de uma forma simples e desportiva. jeans e t-shirt eram o seu conjunto mais habitual. Alguns acessórios como cintos, lenços e bijutaria adornavam graciosamente a sua airosa figura.

Ricardo Vivia numa aldeia próxima e era seu colega de turma, embora fosse dois anos mais velho devido a dois chumbos de má memória. Logo à primeira vista sentiram uma intensa atracção um pelo outro. Do simples meter conversa ao namoro firme foi um passo de perdigoto. Menos de uma semana foi quanto Ricardo precisou para encantar Andreia. Era um rapaz robusto e musculoso, o cabelo negro e as feições másculas contrastavam com o seu permanente sorriso quase infantil. Andreia deu o “sim” definitivo quando ele lhe ofereceu um passarinho em porcelana e lhe disse que só queria deixar de estar ao lado dela quando aquele passarinho voasse. 

- Os pássaros de porcelana não voam. 

Disse ela sorrindo como que adivinhando uma resposta.

- Por isso mesmo. Temos a vida toda.

Não contavam era com a oposição acérrima da mãe dela e do pai dele. Coisa estranha ainda mais que a mãe dele até achava um par giro e o pai dela estava-se simplesmente nas tintas para os namoricos da filha, pelo menos, enquanto houvesse tremoços, caracóis e cerveja a rodos no bar “Flor Da Serra”, onde passava as tardes. Sempre fora dado à boémia, mas piorara após a precoce reforma dos caminhos-de-ferro devido a um acidente que lhe inutilizara um braço.

Alice sentou-se na varanda olhando a faina laboriosa da aldeia enquanto velhos e dolorosos pensamentos lhe atravessavam a mente.

Quem conhecesse o passado não estranharia aquela aversão a este namoro. Alice nunca se intrometeu na vida da filha, mas agora era diferente. Quis o destino, sempre caprichoso, que a sua filha visse com outros olhos o filho de Arnaldo. Precisamente o homem com quem esteve para casar há vinte anos atrás. Alice e Arnaldo mal começaram a namorar já o pai dela ameaçava deserda-la. Provinha de uma família tradicionalmente rica, mas, como tantas outras, estava agora em profunda decadência. Ainda assim era preciso salvar as aparências. Não ia a sua filha casar com o filho do cantoneiro. Arnaldo, revoltado com estas injustiças, partiu de assalto para frança, jurando arranjar um pé-de-meia capaz de satisfazer o pai de Alice. Quando voltou era tarde, tão tarde que encontrou a sua amada casada com um sujeito rude, mas herdeiro de umas terras consideradas valiosas. Alice nunca lhe perdoou por ele ter ido embora e Arnaldo ficou cego de raiva por ela não ter esperado. 

Os pensamentos de Alice coincidiam com os de alguém que estava cinco quilómetros mais para oeste numa povoação vizinha. Arnaldo, sentado numa esplanada, recordava tempos felizes passados com Alice. Veio-lhe à lembrança aquela noite junto à fonte. Alice olhava o céu. Estava deslumbrada com a enorme lua cheia que iluminava a noite.

- Olha que giro!

- O quê?

- Aquela estrelinha pertinho da lua!

- A lua é nossa cúmplice e aquela estrela representa o nosso futuro.

Afinal tornou-se estrela de mau agouro, pensava agora Arnaldo. Decidiu afastar aqueles pensamentos que lhe martirizavam a alma quando o filho chegou.

- O pai paga uma jola?

- Pago porque, até preciso falar contigo. 

Arnaldo e o filho entraram no velho café “Passarinho”, único na aldeia. Pediram cerveja e sentaram-se na mesa do canto.

- Tu andas mesmo a namorar aquela... aquela rapariga.

- A Andreia? Andamos. 

- E isso é serio ou é só no gozo?

- Serio, tão serio que farei dela minha mulher e mãe dos meus filhos. 

- Estás a errar. Aquilo não é flor que se cheire. Alem disso são muito novos.

- Somos novos mas também não nos vamos casar já. Devemos tirar um curso primeiro.

- Não te posso impedir, mas se ela é da laia da mãe, tens muito que sofrer.

- Que raio de implicância tem você com a mãe dela e ela consigo?

- Não é da tua conta.

- Rica resposta. É com essa que o pai arruma todas as questões. Se há coisas relacionadas com o meu namoro que só são da sua conta porque quis falar comigo sobre isso?

- Não ias entender. É uma longa história.

- Conte lá a sua história. Ou sou assim tão burro que não possa entender seja lá o que for? 

- Não é coisa que se conte aqui no café, mas quando souberes vais entender muita coisa.

- Então quando quiser explicar porque é que o pai odeia uma miúda adorável e é avesso à respectiva mãe eu estou pronto para o ouvir, mas haja o que houver eu não vou largar a Andreia.

. Ricardo retirou-se e o pai ficou a meditar no assunto. Não queria magoar o filho, mas tinha que arranjar meios para acabar com aquela paixão que abria velhas feridas. 

O tempo foi passando e chegaram as férias de verão. Ricardo, agora, pouco via Andreia. Passavam horas ao telemóvel fazendo juras de amor eterno. Um dia o silêncio instalou-se da parte de Andreia. Nem chamadas, nem toques, nem mensagens. Ricardo tentava ligar mas o telemóvel dela estava sempre desligado. Que se passaria? Ele pensava se teria feito algo que a magoasse, mas não se lembrava de nada. Teria encontrado outro que o fizesse esquecer assim tão depressa? Ricardo passou dias negros e noites em branco. Assim passou uma semana até que o telemóvel de Ricardo tocou. Ele atendeu com voz trémula e coração agitado.

- Andreia! Até que enfim. Que se tem passado?

- Nem imaginas. Vou ser rápida que estou a falar ás escondidas. A minha mãe bateu-me sem dó nem piedade. Estou toda dorida. Tirou-me o telemóvel e não me deixa sair de casa. Não aguento mais isto.

Ricardo, pela voz combalida, adivinhava as lagrimas no rosto de Andreia.

- Por nossa causa!? Olha, tens que ter paciência. O meu pai também me lixa a toda a hora. 

- Não tenho paciência nenhuma. Estou farta de atitudes medievais. Vou fugir para longe. Depois mando notícias. 

- Espera. Se queres fazer uma loucura, fazemo-la juntos. 



Arnaldo entrou no posto da G.N.R visivelmente perturbado. Um jovem soldado dispôs-se a atende-lo.

- Diga senhor.

- Quero participar que o meu filho desapareceu. 

- Outro!

- Outro porquê?

- Está aí dentro uma senhora a queixar-se do desaparecimento da filha.

Arnaldo estremeceu. Tudo se clareou na sua mente. Adivinhava já quem seria a queixosa. 

- Senhor guarda tenho bons motivos para suspeitar que o meu caso está relacionado com esse outro caso. Posso saber quem é a mãe da rapariga?

- Espere um segundo.

O guarda bateu à porta do gabinete.

- Meu sargento. Está aqui um senhor a queixar-se do desaparecimento do filho. Ele acha que pode haver relação.

- Mande entrar. 

Arnaldo entrou. O sargento encontrava-se atras de uma pesada e desarrumada secretária. Em frente, uma mulher chorava copiosamente.

- Bom dia sargento. Olá Alice. 

- Cala-te desgraçado. Foi o teu filho que desgraçou a minha filha.

- Olha o meu filho também desapareceu.

- Pois, fugiu de ti que és um miserável e arrastou a minha filha com ele.

- Sim? Ou terá sido a tua filhinha que virou a cabeça ao rapaz? 

O sargento maldizia a sua sorte. Era sempre assim. Os nossos filhos eram sempre bons. Os outros é que os desgraçavam. Deu um soco na secretária fazendo voar vários papéis.

- Os senhores fazem o favor de se acalmar e contar o que se passa?

Enquanto Alice caía de novo num mar de lagrimas, Arnaldo esclareceu o melhor que pôde o sargento da guarda. Este tirou vários apontamentos, meditou um pouco e, depois de passar as mãos pelo rosto como querendo apagar os olhos, nariz e boca concluiu.

- Então é assim: o seu filho namorava com a filha desta senhora contra a vossa vontade. A senhora pôs a filha de castigo. A última chamada registada no telemóvel desta senhora era para o seu filho. Portanto, ouve comunicação entre ambos. No dia seguinte desapareceram os dois. Tem toda a razão. Onde está um deve estar o outro. 

Alice irrompeu em raiva.

- Pois. Foi o filho deste canalha que a raptou.

- Olha. foi ela que telefonou ao meu. Pelos vistos, deu-lhe a volta bem dada.

- Os senhores fazem o favor de se calarem e irem para casa? Nós vamos investigar e daremos informações logo que as haja. 

Saíram ambos cabisbaixos. O sargento efectuou alguns telefonemas para todos os quartéis da região. As fotos dos dois jovens foram passadas por fax.

Alice começava a ficar arrependida por ser tão dura com a filha. O marido recriminava-a por isso. – Porque não deixas a miúda em paz? Não vês que são namoricos de garotada? Dizia ele quando a via a engendrar castigos. – agora tens o resultado das tuas paranóias. Mas ele nada sabia do passado de Alice. Como poderia ela ver a sua filha ligada com o filho do homem que a abandonou há vinte anos?

Arnaldo também pensava no filho enquanto consolava a inconsolável esposa. Sentia remorsos por algumas vezes ter azucrinado a cabeça ao rapaz e, secretamente sentia algum orgulho pela atitude do filho. 

Ao fim de sete dias, o sargento da G.N.R. apareceu em casa de Arnaldo. Desceu do todo terreno e encaminhou-se para ele com o seu passo militarista. 

- Amigo, trago boas noticias. Penso que já localizamos os pombinhos. 

Arnaldo não gostou da expressão “pombinhos”, mas a ânsia de novas sobre o seu filho fê-lo esquecer.

- Então? Diga. Estou pronto para tudo.

- Tal como desconfiamos, estão juntos a viver numa cabana junto à praia de Buarcos.

- Buarcos!? Como descobriram?

- Relativamente simples. Eles não foram muito espertos. Acho até que só quiseram pregar um susto. Como sabe, neste tempo há muita gente daqui a passar ferias na Figueira e em Buarcos. Foram mesmo pessoas minhas conhecidas que, sabendo da busca, os viram a fazer compras num supermercado e me comunicaram. Depois, as autoridades de lá depressa localizaram uma cabana meia escondida num antigo parque de campismo.

- A ... a outra já sabe?

- A mãe dela? Sim, está no posto à nossa espera. Você vem?

- Claro.

Alice estava à porta do posto da G.N.R. quando Arnaldo chegou. Ele disse bom dia mas ela não respondeu. Seguiram em direcção à Figueira da Foz com o sargento e um soldado. O sargento fez questão de ser ele próprio a conduzir. No banco de trás Alice e Arnaldo, absortos nos seus pensamentos, não disseram uma palavra até uma boa meia hora de viagem. A certo ponto, Arnaldo decidiu quebrar o gelo. 

- Alice.

Ela estremeceu com a forma como ele prenunciou o seu nome. Parecia uma suplica.

- Sim! Falou comigo?

- Acho que, até recuperarmos os nossos filhos, devíamos pôr de parte tudo aquilo que nos separa. 

Ela ficou um pouco pensativa, respirou fundo e respondeu.

- Está bem, Até termos aqueles mariolas outra vez em casa, vamos esquecer certas coisas.

- Coisas que até já deviam estar esquecidas. Já lá vão vinte anos.

- Por favor. Não quero falar... disso. Limitamo-nos a tratar deste assunto que nos afecta aos dois e nada mais. Certo?

- Ok.

O sargento olhou para ambos pelo retrovisor. Era um homem habituado a lidar com muita gente, conhecia bem o género humano. Este pequeno diálogo deu para que ele percebesse o que se passava entre ambos.

Atravessaram a cidade da Figueira. Em Buarcos, junto à muralha, um agente da P.S.P esperava-os. Foi ele que os levou até um local despovoado entre Buarcos e Quiaios. Saíram do carro e deslocaram-se a pé até uma moita. Lá estava a cabana construída com desperdícios de chapa e madeira. Arnaldo e Alice já iam a correr para lá, mas o sargento deteve-os.

- Tenham calma. Chamamos primeiro.

Não foi preciso. Os dois jovens apareceram à porta de mão dada. Olharam aquele grupo com altivez. Era a hora de enfrentar tudo e todos. Era hora de mostrar que tinham tomado uma decisão inabalável.

Alice, cega de raiva, correu para eles.

- Minha cabra que te mato.

- Espera Alice. 

Arnaldo alcançou-a e segurou-a pela cintura. Ela parou atordoada por aquele abraço enérgico. 

- Que ias fazer?

- Partir a cara aquela reles que se diz minha filha.

- Porquê?

- Porquê!? Perguntas porquê!? Que dizer que aprovas aquilo que eles fizeram!?

- Alice. Acalma-te e olha bem para eles.

Alice, mais calma, contemplou os dois jovens que, entretanto, se tinham abraçado. A sua filha já não era mais uma menina e aquele jovem esbelto protegia-a naquele ermo. O seu pensamento voou para outros tempos. Para os verdes anos da sua adolescência. Quantas vezes tinha sonhado com aquela clássica imagem de um amor e uma cabana, Ao lado daquele homem que ainda a segurava virilmente pela cintura?

Voltou-se para Arnaldo. Seus olhares encontraram-se já sem aquela aversão que ambos alimentaram durante anos.

A voz de Alice saiu como um sussurro semelhante ao da brisa fresca que lhe varria o rosto. 

- Que queres que veja?

- Olha bem. Nós também já passamos por isto. Também já fomos assim. Lembras-te?

- Sim. E depois?

- Devíamos ter orgulho nos nossos filhos. Tiveram coragem para fazer aquilo que nós nem sequer pensamos em fazer.

Alice ficou algum tempo numa espécie de transe e, por fim, avançou em direcção à filha e abriu os braços. Andreia, soluçando, abraçou-se à mãe. Ricardo foi ter com o pai. Por momentos imperou o silêncio. O sargento segurava a custo uma lagrima. Foi Alice que rasgou aquela silenciosa e comovente cortina em que todos estavam envolvidos. 

- Ricardo. Um dia chamei-te pícaro. Desculpas-me?

Um sorriso iluminou o rosto do jovem.

- Está desculpada minha senhora. 

Em seguida dirigiu-se à filha, cujo sorriso envergonhava a lagrima que ainda lhe sulcava o rosto, em falso tom autoritário.

- Não quero que prejudiques os estudos. 


SETE ANOS MAIS TARDE.


- Estás linda. És a mais bela noiva que esta terra já viu.

- Obrigada mãe, mas não sei. A mãe, mesmo com uns anitos a mais, ainda me põe a um canto.

- Cala-te. Estou velha. Quando era da tua idade até era gira.

Era curioso ver mãe e filha diante do espelho vestidas de noiva tagarelando como duas adolescentes. Alice com um vestido mais sóbrio em tons cinza, Andreia com um deslumbrante vestido branco digno de uma princesa. No meio da loquacidade, Alice ficou triste de repente.

- O teu pai ia gostar de te ver.

- Mãe! Por favor, não recorde tristezas. 

- Fez ontem seis anos que foi sepultado. Avisei-o muitas vezes que o álcool acabaria com ele. Mas tens razão. Hoje não é dia para tristezas. Como estarão os noivos?

A poucos quilómetros dali, Arnaldo estava já pronto para a cerimónia. Ricardo andava ás voltas com uma gravata.

- Como raio é que se faz a porcaria do nó? Quem inventou esta treta de andar com uma fita atada ao pescoço? Ainda vou sem ela.

Arnaldo riu com vontade. 

- Vocês, jovens são assim: sabem tudo, dominam computadores, navegam na Internet, mas não sabem fazer um simples nó de gravata. Vem cá.

Num rápido gesto, Arnaldo ajeitou a gravata ao filho e depois comentou em tom triste.

- Estás todo boneco. A tua mãe teria orgulho de ti.

- Pai! Já lá vão cinco anos.

- Podia estar viva se não escondesse durante tantos anos os sintomas da terrível doença.

- Pai não se martirize com isso agora.

- Tens razão. Vamos embora que nós é que temos que esperar pelas senhoras.

Duas horas depois, Arnaldo e Alice juravam amor e fidelidade eterna perante o padre Alberto. Desviaram-se a seguir para um canto dando lugar ao jovem par composto por Ricardo e Andreia. Foi com teimosas lagrimas que viram seus filhos fazerem igual e sagrado juramento. Retiraram-se, os quatro, com felizes sorrisos nos lábios e o fulgor da esperança a brilhar nos olhos. O velho sacristão embevecido com a cena dirigiu-se ao padre Alberto.

- Que acha disto, senhor prior?

- Olha, em quarenta anos de sacerdócio, nunca tal vi. Só te digo uma coisa: a vida dá muita volta e o destino prega-nos muitas partidas. Essa é que é essa.

Mais tarde, Ricardo e Andreia, passeavam junto ao mar. Era uma noite quente e fortemente clareada pelo belo luar de agosto. 

- Olha Ricardo, a lua está linda e há uma estrelinha mesmo junto a ela.

- É a estrela da nossa felicidade.

Não muito longe dali, numa varanda de hotel, outro casal em núpcias também observava a lua. 

- Alice, Ainda te lembras?

- Sim. Há uma estrela ao lado da lua.

segunda-feira, 28 de março de 2016

PONTO ZERO - #21 - SOZINHO EM BOA COMPANHIA

Sair à noite, ir a um bar, beber um copo, conversar com os amigos e amigas, foi algo que sempre fez parte da minha vida. Digo “foi” porque cada vez é menos. É verdade que uma boa parte desses companheiros e companheiras de boémia cavaram para onde se ganha a vida. É verdade que os quarenta e dez anos de idade já não estão tanto para noitadas, mas não é por isso que fico em casa de volta dos meus vícios. O problema é que hoje juntamos meia dúzia de amigos num bar à volta de uma mesa e não está lá ninguém. Cada um puxa pelo seu ecrã, mais ou menos sofisticado e desaparece. Eu, como tenho um ecrã de trinta paus e procuro convívio, fico sozinho. Para estar sozinho entre amigos, então fico em casa e falo com eles no Facebook. Falo apenas, não converso. Uma boa conversa não é só palavras. É o tom com que se fala, é a expressão do rosto, é o olhar, é o gesto é, até, o carinho que acompanha cada palavra. Posso estar em casa a falar com vinte pessoas, mas contínuo sozinho. 


Isto não é dizer mal das novas tecnologias, até porque as uso com muito prazer e proveito. Sem elas talvez ninguém lesse este texto. É constatar que a mesma internet que transformou o mundo numa aldeia, consegue anular o relacionamento humano de proximidade. Hoje estou mais próximo da família que tenho na América do que das pessoas com quem lido diariamente. Lidar não é conviver. É dizer: Olá, tudo bem a alguém que levantou os olhos por um instante do ecrã. Vai sendo tempo de inventarem óculos com ecrã nas lentes. Uma lente para o Facebook e outra para ir navegando com uma simples piscadela de olho. Há a vantagem de não estar inclinado para a frente e ficar com as mãos livres. Pode ser que as mãos livres façam algo de agradável e produtivo. Note-se que foi a mão livre que levou um antigo primata a dar um grande salto na evolução tendo como resultado final a nossa espécie. 

Ter medo das mudanças é muito humano, principalmente quando já se viveu meio século. Não tenho medo, até porque nasci noutro planeta onde não havia internet nem computadores nem telemóveis e quase nem televisão. Se vi o mundo mudar abruptamente nos últimos trinta anos sem receios, também não temo o que há-de vir. Questiono apenas como será um mundo governado por pessoas que não brincaram às escondidas, não jogaram à bola na estrada, não fizeram cabanas no mato, não fizeram bolos de lama, não roubaram fruta das árvores, não foram aos ninhos, não jogaram à cabra-cega, nem ao anel-anel, não leram banda desenhada, nem a “Anita” nem nada, não esfolaram os joelhos nem racharam a cabeça à pedrada? Se calhar até será um mundo melhor, mas totalmente diferente. A minha carreira, ainda curta, de escritor tem os dias contados ou então edito um livro com uma tiragem de dez exemplares e será um best-seller se vender oito. O velho sonho de publicar um livro de banda desenhada também pode ficar pelo sonho. Claro que posso sempre emigrar para a Bélgica, ultimo reduto da 9.ª arte. Certo é que vou continuar a escrever e a desenhar, nem que seja só para mim. 

Não tenho medo do novo mundo, mas tenho saudades do tempo em que se estava num bar a falar de coisas sérias, a contar anedotas, a fazer jogos de cartas ou outros jogos que podiam terminar a esforçar os amortecedores de um automóvel. Até isso está cada vez mais virtual, apesar das bem-abençoadas liberdades conquistadas.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

PONTO ZERO - #20 - CARNE OU BACALHAU?

Estamos a caminho de eleições. Já é a única arma que o povo tem para lutar pelo melhor. Arma essa que metade não usa. Isso faz-me confusão. Tendo o direito a escolher porque é que se fica em casa dizendo claramente que qualquer coisa serve? Com que direito é que depois se protesta? Se me derem em escolher entre carne de porco à alentejana ou bacalhau à lagareiro e disser que tanto faz, depois não posso queixar que a carne está dura ou que o bacalhau está salgado. Se podia e escolher e não escolhi, agora tenho que comer e calar. No acto eleitoral devia ser dado um comprovativo de voto e só estaria autorizado a participar em manifestações quem apresentasse tal documento. Um argumento para não ir votar é dizer que são todos iguais e nenhum presta. Então se me dessem a escolher os dois referidos pratos e eu não gostasse de nenhum deles, podia simplesmente dizer: não tenho fome. É para isso que serve o voto em banco, para dizer não a todos.

Ter direito a voto e não votar é como deitar pão fora num mundo onde milhões de crianças morrem de fome. Isto não é uma boa comparação visto que votamos um pouco por todo o mundo nas pessoas que mais contribuem para tamanha injustiça. Aquilo que alguns estragam dava para todos se empanturrarem. Não deve haver nada mais triste que uma mãe ver um filho a morrer de fome. É por isso que quando alguém me fala no problema da obesidade infantil, fico revoltado e só me apetece mandar tudo para os restos finais de uma refeição ou para um determinado órgão masculino. Lugares estranhos para onde mandamos quem nos irrita, mas o mundo está cheio de coisas estranhas. Depois há que pensar nos milhões de pessoas que lutam pelo simples direito de escolher. Há que pensar em nós mesmo que durante quarenta e tal anos apenas tivemos direito a comer, calar e ainda agradecer por nos terem livrado de uma guerra, embora nos tenham metido noutra que matou dez mil jovens e deixou um número incalculável de mutilados no corpo e na alma.


Dia quatro de Outubro vou votar e vou sem fome. Não me apetece carne nem bacalhau. Ainda poderei optar por açorda à Karl Marx. Sempre será menos indigesta. 

terça-feira, 15 de setembro de 2015

PONTO ZERO - #19 - HÁ SACANAS À SOMBRA

Sento-me na minha varanda. Como uma sandes de fiambre e abri uma cerveja geladinha. Agosto ainda vai quente. Do fundo do corredor da minha memória vem a voz do meu avô:
                - Até caiem rolas assadas!
Viajo até essa sala a memória onde guardo tanta coisa boa de uma infância feliz. Lá estão os meus avós, grandes responsáveis por tal felicidade.
                - Até caiem rolas assadas!
Olhava para o céu, não na esperança de ver cair nada, mas imaginando uma chuva de pequenos churrascos. Ria-me. Ria-me com os meus pensamentos. Se é isso que fazem os loucos, então é isso que eu sou. Não perdi a vontade de rir com as bizarrias da minha imaginação desenfreada. Rio porque não sou muito para chorar. Ao contrário do que se diz, nós homens também choramos, mas prefiro abstrair-me ou encarar qualquer causa de lágrimas com racionalidade.
A minha avó tinha outra frase para o calor do verão:
                - Está um calor que até assa canas à sombra.
Frase matreira para chamar sacanas ao meu avô e ao neto preferido, ambos sentados à sombra do castanheiro. “Assa canas à sombra” e “Há sacanas à sombra” soa da mesma maneira. Eu fingia que não percebia. O meu avô, apesar de ser bem desempenado no falar, respondia algo imperceptível por entre os poucos dentes. Seria algo pouco educativo para o ouvido de uma criança, enfim… sacanices.
O apito da carrinha do padeiro fez-me voltar à realidade e cortou-me o pensamento da mesma forma que cortou a silenciosa calma da minha aldeia. Terra simpática que me viu crescer e que tem envelhecido comigo. Os velhos vão morrendo e os jovens batem asas daqui para fora atrás da vida que aqui não vive. Cada vez são menos os clientes do padeiro. Regresso às galerias da memória. Sou outra vez criança e percorro as ruas da aldeia. Há gente em todo o lado. Mercearias são quatro. Há cafés e uma taberna. Há sapateiros, um relojoeiro e um funileiro. Há quem venda sardinha de canastra à cabeça. Há quem ande de canastra à cabeça a comprar ovos. Há ovelhas, juntas de bois, burros e galinhas à solta para infelicidade das minhocas. À hora da saída da escola há uma rua cheia de crianças. Há vida. Havia vida. Agora atravesso a aldeia e talvez tenha a sorte em ver um gato.

Termino o meu lanche, mas fico por aqui na melancolia. Está um calor que até há sacanas à sombra. 

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

PONTO ZERO - 018 - O TEMPO DO CHICHARRO

Ouve-se uma buzina. Vou à janela. É o peixeiro. Curioso acontecimento das nossas aldeias. Recordo outros tempos. O tempo em que era a minha tia Maria Chouriça que andava de rua em rua de canastra à cabeça a apregoar a sardinha fresquinha e outros peixes vindos do distante mar. Sim, o mar era muito mais longe do que hoje. Nesse tempo era tudo mais longe, mas o próprio tempo passava mais devagar. “Não tenho tempo” é das expressões mais usadas nos dias de hoje. O que é que fizemos ao tempo!? Einstein descobriu que o tempo é relativo e que passa mais devagar para quem viaje a alta velocidade, mas isso não se aplica ao nosso quotidiano.
O peixeiro abriu uma porta lateral da carrinha e algumas mulheres aproximam-se com pratos na mão.
Devíamos tratar o tempo como se fosse dinheiro. Se temos cem euros não podemos gastar cento e vinte. Se temos vinte e quatro horas por dia não nos podemos meter em trabalhos que ocupam trinta horas. Precisamos de tempo para dormir, para comer, para brincar, para conviver, para aprender, para criar, para amar e até para nos estendermos ao comprido sem fazer rigorosamente nada. Tenho desses dias. Um milhão de coisas para fazer, mas não dá. Amarro o burro e deito-me ao comprido no meu sofá a olhar para o teto com o miolo cinza desligado. Qualquer interrupção a este processo tem a típica resposta: Não me chateiem.
As mulheres regateiam o preço do peixe. O peixeiro de corpo roliço quase esférico, sinal de que é mais virado para as torresmadas do que para o salmão grelhado, abre os braços barafustando: O que é que querem!? Eu já compro caro… isto mal me dá para o “gasóil”…
Na infância, o tempo, passa mais devagar. Pelo menos era assim na minha já longínqua verde idade. Tinha-mos quatro meses de férias. Quatro meses sem ver os colegas, amigos e paixonetas que se derretiam no calor do verão. O primeiro dia de aulas era todo abraços e beijinhos. A Paixoneta do ano passado tinha agora um cabelo horrível e borbulhas onde antes via pintinhas. Era tempo de virar atenções para a desprezada prima agora mais crescida em todas as medidas. Agora já não há tempo para saudades. O telemóvel e o Facebook mantêm a juventude em contacto. Isso não é mau, mas a saudade faz bem. Faz dar valor àquilo que nos falta. Hoje já nem as crianças têm tempo. Primeiro há a escola. Depois vem a aula de música, de dança, de ballet, de judo, de karaté e de todas as outras artes e desportos possíveis e imaginárias. Se sobrar tempo é para ficar de olhos postos num ecrã. Acho fantástico que as crianças de agora tenham jeito para tudo. A minha mãe bem me punha o acordéon ao colo, mas dali só saiam coisas roufenhas do tipo dinossauro engasgado. Também sou daltónico dos pés. Nem futebol, nem dança. Sei andar, mas devagar para não cair.
- Pegue lá o chicharro. Não estou para dar um dinheirão por espinhas. O peixeiro encolheu os ombros resignado.  
Não percebo nada de novas pedagogias, mas acredito que faz falta a uma criança brincar na terra, sujar-se, apanhar fruta e comer sem lavar, andar à pancada, esfolar os joelhos e partir a cabeça. Talvez não seja tanto assim, mas ver jovens que chegam aos vinte anos sem se conseguirem desenrascar sozinhos em coisas tão simples como apanhar um comboio é estranho e triste. Tanta informação e tão pouca formação.

O peixeiro fechou o carro e arrancou a apitar pela rua Dom Manuel I fora. O tal rei que deu Carta de Foral à minha aldeia no tempo que era vila. Que faça bom negócio. 

terça-feira, 14 de outubro de 2014

PONTO ZERO - 017 - O QUE É QUE UM SAPO TEM A VER COM O PLANETA SATURNO?

Cheguei a casa. Está a cair uma chuva miudinha do tipo molha-parvos. É o outono a instalar-se com a sua beleza a cheirar a nostalgia. Tenho um sapo na varanda. Podia pensar que alguém o pôs lá para desenvolver qualquer bruxedo. Acontece que as bruxas não acreditam em mim e sempre me deixaram em paz. O pobre batráquio só considerou aquele lugar um bom lugar para estar. Também faço isso em certos bares.
Peguei num jornal. Já não é de hoje, mas é um jornal. Os jornais são de todos os dias. Já tiveram dias melhores, mas não acabaram. Se resistiram à rádio e à televisão também vão resistir à internet. É tal como os livros. O prazer de ler vai além das letras. É preciso sentir o objeto, manusear as páginas, segurar nas mãos as palavras de quem escreve. Ver o telejornal é aborrecido. O senhor ou senhora vibra com as más notícias e fica desapontado com as boas notícias. O povo gosta de más notícias, desde que sejam longe. Ler as novidades na internet é seco.
Lá da cozinha vem a voz da minha mãe:
- Queres que acenda a lareira?
Quando penso em lareira não penso só no calor. Penso no crepitar das cavacas atacadas pelo fogo. Penso em castanhas assadas. Penso em requeijão com café. Depois entro no portal do tempo e penso na sopa da minha avó feita na panela de ferro com a mistura esmagada como um garfo na colher de pau.
- Ainda não está frio para isso.  
Um jornal é sempre um jornal. Dar para ler e reler. Sublinhar coisas dignas. Recortar notícias para arquivar em pastas. Por estranho vício começo a folhear o jornal ao contrário. Vejo a página cultural que é sempre das últimas. A cultura fica sempre em último lugar nos jornais e nas opções políticas. Até parece que é um frete. Esta página cultural deixou-me desapontado. É sobre tourada. Que raio de cultura pode haver quando o povo se junta ao redor de uma arena para ver a tortura e humilhação de um animal? Por falar em animais, lembrei-me do sapo. Ainda lá estaria? Fui ver. Estava sim. Impávido e sereno olhando o vazio. Que estranha forma de vida. Os anfíbios apareceram há 350 milhões de anos. São a transição do meio aquático para o meio terrestre. Um grande passo evolutivo. Eles viram o desenvolvimento, domínio e extinção dos dinossauros. Esperaram mais de 60 milhões anos até um primata deixar as árvores e evoluir até se reunir em redor de uma arena para ver a tortura e humilhação de um animal. Será que a inércia do sapo é a sua arma para espécie sobreviver 350 milhões de anos numa Terra inóspita? Nesse caso somos demasiado irrequietos para cá andar muito tempo.
Volto ao jornal. Todos os jornais mantêm a tradição de ter o espaço de Astrologia. Espera lá. Não é tradição. Muita gente acredita, mas acredita mesmo. Dá-me gozo pensar como é que o planeta Saturno situado a 1430 milhões de Km pode afetar a minha vida. Seria mais lógico acreditar que aquele sapo na varanda é capaz de me trazer algum mal. Ainda assim faço como toda a gente. Leio as previsões para o signo touro: Saúde: “Pode sentir-se inseguro para grandes convívios”. Na palavra “pode” está implícito o “não pode”. Bate sempre certo. Outra coisa: insegurança ou, neste caso, falta de paciência não é doença. Amor: “Atue com calma e discrição”. Ora aí está um bom conselho para todos os signos seja qual for a posição da Lua. Dinheiro: “Desenvolvimentos inesperados em questões financeiras”. O inesperado tanto pode ser bom como mau. Mais uma vez bate sempre certo. Arrumei o jornal. Vou ligar a televisão, mas antes vou ver do sapo. Já foi à vida dele. Pior para muitos insetos distraídos. É vida.  

domingo, 5 de outubro de 2014

PONTO ZERO - 016 - PERDEMOS AS ESTRELAS

Um programa de rádio inventou uma coisa chamada “desbloqueador de conversa”. Uma frase muito
útil para usar quando duas ou mais pessoas têm que estar juntas sem tema para conversa. O mais habitual é falar do tempo: ai e tal. A chuva nunca mais nos deixa. Espera-se que a outra pessoa concorde e talvez daí surja outro assunto. Um dia destes cheguei ao pé de uma amiga e, estando sem assunto disse: sabias que nós não vemos as estrelas, mas sim a luz que elas emitiram há milhares de anos atras!? Foi um desbloqueador de conversa bastante eficaz. Ela questionou-me sobre a Ursa Maior e a Ursa Menor. Melhor que explicar é mostrar. Viemos para a rua. A iluminação pública não deixava ver grande coisa, mas ainda lhe mostrei a Ursa Maior e a Fantástica constelação de Orion. Falei-lhe de várias lendas associadas a estas constelações. O que é que isto tem de extraordinário? Por momentos voltei à infância, ao tempo em que me sentava na varanda em noites de verão mais o meu avô. Ouviam-se os grilos no seu habitual concerto noturno e o meu avô apontava para o céu. Olha ali aquelas estrelinhas todas juntas. É um rebanho de ovelhas. Agora vês aquela estrela amarela? É o lobo. Lá mais atrás vem aquela estrela brilhante que é o pastor. Entre o lobo e o pastor estão aquelas três estrelas. É o cajado que o pastor atirou ao lobo e se partiu em três. Eu olhava deslumbrado e a minha jovem mente via claramente a cena de um pastor que, vendo o seu rebanho atacado, atira o cajado ao lobo. Que maravilha olhar para o céu e ver uma história escrita em pontos luminosos! Existem centenas de outras histórias escritas no céu de uma noite límpida. A Ursa Maior tem outros nomes na interpretação de outros povos. Nomes como a “Caçarola”, o “Carro” ou o “Arado”. Se fosse batizada hoje talvez se chamasse o “Computador”. Já não estamos no tempo de dar nomes às constelações e quando batizamos algum novo corpo celeste damos nomes tão frios como “Gliese 581 b”, “HD 22049 b” e “HAT-P-9b”. Nomes científicos com a sua lógica, mas que nada têm a ver com a vida do dia-a-dia como todos os outros nomes dados na antiguidade. Hoje espreitamos o céu atrás de potentes telescópios, mas há milhares de anos que somos astrónomos. Vamos à pré-história. As noites não são ofuscadas pelas luzes das nossas cidades. Podemos ver as estelas. Podemos estudar os movimentos aparentes. Podemos encontrar padrões e prever as estações. Podemos saber quando é tempo de levantar o acampamento e mudar para outras zonas mais quentes e com mais caça. Podemos simplesmente num exercício de imaginação unir os pontos, formar figuras e construir histórias que passarão de boca em boca até à era dos super telescópios. Hoje temos outras estrelas nos ecrãs da televisão e dos computadores. Perdemos o bom hábito de nos sentarmos na varanda e contemplar o céu onde lobos correm atrás das ovelhas ao som dos grilos no seu concerto noturno. 

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

PONTO ZERO - 015 - BALOUÇO VOADOR

ILUSTRAÇÃO DE MONICA ARMINO
Hoje é segunda-feira e, como é típico deste dia, não me apetece fazer nada. Lá fora a neblina já levantou e adivinha-se um dia de primavera neste início de outono. Sim, há grandes semelhanças entre o outono e a primavera embora o sentimento seja outro. É como o acordar e o adormecer ou o nascer e pôr-do-sol. Fases de transição tão semelhantes e tão diferentes. Claro que isso era mais no tempo em que as estações do ano estavam bem demarcadas. Sabíamos com o que podíamos contar, mas não me apetece agora falar de poluição, aquecimento global, efeito estufa e estupidez humana. Cada vez me convenço mais que a autoextinção é uma característica natural da vida dita inteligente.
Lá fora há uma menina no baloiço sob o olhar atento da mãe. A menina talvez sonhe que vai a voar. Se sonha é porque é verdade. Na infância os sonhos são mais reais que a realidade. Eu também sonhei e ainda sonho, mas já não acredito nos sonhos. Já não acredito que atras daqueles arbustos está uma mesa posta onde o Chapeleiro Louco e o Coelho Branco tomam chá. A menina acredita e é ela que tem razão. Acendo um cigarro. É o meu vício. Deixei-me cair na hábil armadilha dos vendedores de venenos legais. Legais e letais. Enfim… ninguém vive para sempre. Gostava de me libertar desta prisão, mas é preciso querer porque querer é poder.

A menina continua a voar no seu baloiço de sonhos. Quem me dera voar em direção ao espaço, atravessar um buraco negro e desembocar noutro universo. Claro que tenho o meu universo onde me posso refugiar. Todos temos o nosso universo privado. O meu é confuso, mas elegante. É um somatório de formas, cores, sons, frases, poemas, pessoas que me fizeram bem ou mal, prazeres, desgostos, orgulhos, frustrações e sonhos. Já não são como os sonhos da menina voadora, mas são sonhos bons. Não tenho pesadelos porque nada me atormenta. Toca o telefone. Não sei quem é, mas aposto que não é ninguém para me dar nada. Certinho. Uma voz simpática tenta-me vender um seguro de vida. Se houvesse um seguro que segurasse a vida comprava já, mas isso era contra as leis da natureza. Um dia terei que devolver ao cosmos tudo o que recolhi, tudo o que fui. Despachei a voz simpática sem ser grosseiro. Ela está a trabalhar. Não merece grossarias. Voltei à janela, mas a menina já não voava. Afastava-se já pela mão da mãe. Fazia birra, queria continuar a voar, a sonhar e a viver. O parque infantil ficou vazio. Eu também.   

segunda-feira, 28 de julho de 2014

PONTO ZERO - 014 - ILUSÕES

Vivemos rodeados de ilusões. Tão seguros de nós e somos enganados a toda a hora. Até posso começar por estas letras. São letras? Não. São números. São só sequências de dois algarismos. O “zero” e o “um”. Um código binário que forma tudo o que vejo neste computador desde texto à imagem passando pelo som.
Por falar em som lembrei-me da música. Um conjunto de sons e de silêncios dispostos com uma certa harmonia agradável ao ouvido. Sim, o silêncio faz parte de uma composição musical. Está para o som como o preto está para a cor. Não é cor, é a ausência dela. A música transmite-nos as mais diversas emoções, mas é apenas som. Se trocarmos as notas à mais bela música obtemos ruido.
Sentamo-nos no escuro do cinema com um balde de pipocas. Na tela surgem imagens. Ali passam navios, comboios, naves espaciais, extraterrestres, animais extintos e atores e atrizes que admiramos. Temos pena, mas mais uma vez são estamos enganados. O que vemos na tela é apenas luz e sombra. Fotografias projetadas em sequência de tal forma que o nosso olho não distingue a passagem de foto para foto dando a ideia de movimento. Luz e sombra é também o princípio da própria fotografia. Mais modernamente temos fotos compostas por milhões de pontos. O que vemos? Uma pessoa, um animal ou uma paisagem. O que temos? Pontos coloridos.
A dança é corpo em movimento em concordância com a música. É possível contar uma história através da dança. O Lago dos Cisnes é um bom exemplo. Ai ficamos a saber do amor do Príncipe Siegfried por Odette, transformada em cisne pelo mago Rothbart. No fim quebra-se o feitiço e, como é costume, vivem felizes para sempre. Ficamos com uma bela história, mas o que é que vimos? Corpos em movimento sincronizados com a música.
Um livro é um mestre. Um livro pode mudar uma vida. Um livro faz-nos rir, faz-nos chorar, faz-nos pensar, mas o que é um livro? Um molho de folhas com tinta. Só isso.
A maior das ilusões: pedaços de papel e rodelas metálicas. Por isso somos capazes de matar, de fazer guerras, de invadir e massacrar nações inteiras. Quem mais tem mais manda e mais explora quem mão tem. O dinheiro comanda o mundo, mas é apenas papel e metal.

Assim vemos a realidade em luz, sombra, cores, sons, silêncios e movimentos. Tudo isto sem falar na chamada realidade virtual. Afinal talvez a “Alegoria da Caverna” de Platão fosse mais que uma imaginativa explicação do mundo distorcido a que temos direito. Talvez fosse uma verdadeira profecia para os tempos modernos. 

segunda-feira, 21 de julho de 2014

PONTO ZERO - 013 - AUTOENTREVISTA

Adicionar legenda
Alguém entrevistar-se a si mesmo deve parecer um ato de imenso snobismo. Pode bem ser. Pode acontecer com alguém que lê revistas cor-de-rosa ou vê programas de televisão de encher pneus e que sonha com aquelas entrevistas feitas a estrelas com perguntas e respostas previamente combinadas. Fazer perguntas a nós próprios e responder é uma boa ideia para pintar uma boa imagem para agradar à sociedade manipulada pela comunicação social propriedade dos senhores do dinheiro. Está tudo tão bem orquestrado que as pessoas acreditam em tudo incluindo autoentrevistas. Tudo isto é verdade e tudo isto é mentira. A autoentrevista é aquilo que cada um faz desde tenra idade. É aquilo que a humanidade faz desde que o desenvolvimento cerebral nos deu consciência de existir. Quem somos? De onde viemos? Qual o nosso futuro? O que fazemos aqui? São questões que tentamos responder pelos meios mais racionais e estúpidos possíveis através da ciência, filosofia e religião. Não estou a chamar estúpido nem racional a nenhum utilizador destas ferramentas. Na hora dos apertos, o maior cientista é capaz de clamar por Deus e o mais crente é capaz de abandonar o altar para se entregar nas mãos de um médico. Já a filosofia, amor à sabedoria por definição, é a arte de procurar a verdade questionando sempre os problemas e questionando muito mais as soluções.
            Comecei esta crónica com vontade de fazer uma dúzia de perguntas a mim mesmo. Descobri que só estava a perder tempo. Tudo se pode resumir a uma pergunta: Que queres tu da vida? Resposta: O mesmo que toda a gente: ser feliz. Alguém disse um dia que a felicidade assenta em três pilares: Saúde, sabedoria e amor. SSA ou SAS fica melhor. Podem falar na paz, mas a paz é filha do amor e da sabedoria. Podem falar da liberdade, mas também esta é filha da sabedoria. Não é por acaso que as ditaduras, as religiões e o grande capital cultivam a ignorância. A um povo ignorante é mais fácil impor um regime, explorar a fé e vender futilidades. Alguém me sussurrou ao ouvido. Então e a amizade? A amizade é amor. É a forma mais pura e por isso mais rara do amor.           

            Serei feliz? Por enquanto vou tendo alguma saúde, mas mais tarde ou mais cedo terei que pagar a fatura de uma vida desregrada. Ainda assim não vale a pena abrir o guarda-chuva enquanto o céu ainda está limpo. A sabedoria é algo que persigo ferozmente. Quanta mais conquisto, mais vejo para conquistar. É como comer um bolo que aumenta de tamanho por cada fatia que se corta. O amor? Bem… o amor é outra coisa…